O trabalho de preparação corporal está sendo conduzido por Regina Arruda e se desenvolvendo com a proposta de criar uma dramaturgia a partir de um personagem, a que chamamos de “Poeta”, mas desdobrando-o em dois atores.
A proposta de preparação corporal é trabalhar com dois eixos de conduta. O primeiro eixo, chamado de preparação física, tem por objetivo dar resistência e confiança a cada um dos atores, estabelecendo, por meio de exercícios uma rotina de aquecimento e preparação física, que inclui a voz. O segundo eixo, chamado pesquisa corporal é orientado a partir do texto. As propostas, neste caso, são elaboradas junto com a direção e procuram atender às necessidades de pesquisas para as cenas que estão sendo criadas e obedecem aos critérios estabelecidos pela dramaturgia proposta. Este trabalho tem sido facilitado pelo fato de a Regina estar acumulado a função de assistente de direção também. Daí que a dramaturgia, em boa parte, é construída pelo trabalho corporal.
A partir disso, procuramos trabalhar com dois modos de expressão do corpo, notadamente os modos apresentados pelos atores Paulo e Wagner no inicio do processo, a saber: o Wagner apresenta um repertório de movimentos mais ligados ao cotidiano, enquanto o Paulo, movimentos mais, digamos, “expressionistas”. Porém, segundo a proposta de desdobramento, trata-se de um personagem apenas, então de início, o trabalho corporal está focado na procura de um corpo que seja comum aos dois atores. Portanto, em principio, trabalhamos com três eixos de pesquisas corporais: um corpo cotidiano, um corpo expressionista e um corpo comum aos dois.
As ações cotidianas propostas pelo Wagner, de certo modo, se contrapõem às ações apresentadas por Paulo. O poeta em seu cotidiano se relaciona com seu espaço imediato: o apartamento no exílio, onde tem uma rotina, ou tentar ter. As propostas de ações cotidianas passaram a ter como referência a vida do poeta neste espaço, que não é o seu, onde ele se sente acuado, com medo e sem esperança. Os dias e as noites se sucedem, muitos deles sem sair de casa. A rotina dos afazeres domésticos como forma de manter a própria sanidade. Lá fora um país que não é o seu, também passa por distúrbios políticos, causando mais apreensão, o exílio é como estar preso pelo lado de fora, sua casa torna-se então uma cela. Porém estas ações cotidianas têm que trazer de alguma forma sínteses que se relacionam com o que se diz no poema.
As ações como propostas pelo Paulo se apresentam mais subjetivas em relação ao conteúdo que procuram expressar, por isso a chamamos de ações expressionistas. O repertório do Paulo traz referências aos estudos que ele realizou como aluno na Escola Nova Dança, companhia de dança contemporânea de São Paulo. O conceito de dança contemporânea veio ajudar a compor a concepção dos espaços de tempo que o espetáculo adota e o poema apresenta: o passado, o presente e como eles se misturam na poética do artista.
O tempo presente é visto sob dois aspectos: o cotidiano do exilado que tem como pano de fundo a situação política em que vive e que determinam seu dia-a-dia no apartamento, em outro país, em outra cidade. Por outro lado, este dia-a-dia do exilado se confunde com o dia-a-dia do poeta, que se vê tomado por um poema que insiste em ser escrito. O “estado poético” impõe ao poeta um trabalho que o domina e afeta a sua rotina, aqui temos a imagem do desdobramento do poeta: o poeta exilado que lida a rotina da casa e o poeta memória, que viaja pelo tempo e espaços, sopra os versos ao ouvido do escritor.
O passado é trazido por meio das lembranças do próprio poeta. Sua vida é revisitada, as memórias, no entanto, não conduzem o poema para uma autobiografia apenas. O poeta utiliza destas lembranças para tecer reflexões que retratam a sua situação imediata, ou seja, sua condição se torna como um pano de fundo para o poema. No caso da transposição para o teatro é a partir desta informação que estamos concebendo a dramaturgia do espetáculo.
Passado e presente se juntam sob a ótica critica do poeta exilado. Dois corpos sintetizados em uma pessoa, dois atores, com características diferenciadas que se juntam para criar esta personagem. Um corpo para as imagens do passado, um corpo para o cotidiano do presente e uma síntese dos dois. O trabalho do Paulo contagiando o trabalho do Wagner e o contrário também. Têm sido enriquecedoras as possibilidades que esta proposta tem revelado.
W.A.
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