Uma Rosa para Bela – a gênese do Salamandra Teatro
O Salamandra Teatro e Companhia surge em 1993 com a montagem de Uma rosa para Bela, adaptação do conto A Bela e a Fera. O espetáculo de formatura dos alunos do curso de formação de atores do Teatro Ventoforte, estréia em novembro de 1993. O teatro Ventoforte é uma companhia teatral reconhecida por espetáculos que tem como base a pesquisa na área de cultura popular.
O projeto proposto por Ilo Krugli, diretor do Ventoforte, estabelece um processo criativo que valoriza as experiências dos estudantes como base para a concepção da linguagem cênica e inclui a integração de outras linguagens artísticas. A orientação geral é associar a universalidade de um conto clássico à cultura popular regional para criar um espetáculo bem brasileiro. A concepção do espetáculo parte da leitura simbólica do conto a partir dos pressupostos da psicologia analítica para interpretar a história. A história torna-se uma representação do rito de passagem da infância para a juventude.
A encenação dá relevo às iniciativas que o elenco deflagra no processo criativo. Além do texto, o grupo se envolve em todas as etapas da criação e da produção do espetáculo. A divisão de tarefas funciona e isso, de certa forma, é percebido no espetáculo. O critico Dib Carneiro Neto (em O Estado de São Paulo, 11/1993.) comenta: “O elenco que participou de todas as etapas de produção da peça, está homogeneamente afinado e demonstra visível envolvimento emocional com o espetáculo. Sorte da platéia, que também acaba se envolvendo. O recurso de ir retirando panos e adereços de um velho baú no centro do palco atiçam a curiosidade da criançada na medida exata. Os momentos em que os atores trocam as máscaras, alternando também os papéis, servem para intrigar a garotada de forma inteligente.”
O Salamandra se organiza, sobretudo, em torno de uma forma de trabalhar. Os princípios que o regem adotam uma linha mais aberta na relação direção/elenco e uma organização de cooperativa em que os artistas do grupo ajudam a tomar decisões e a administrar.
A consolidação do Grupo Salamandra acontece graças a outro espetáculo, Todas as vidas, com poema homônimo de Cora Coralina. O espetáculo, produzido pela Companhia de Saia - Teatro e Dança, estréia em novembro de 1993. O espetáculo, identificado como teatro-dança, lança mão de múltiplas linguagens, incluindo ainda a poesia e a música.
No espetáculo, as estrofes que evocam cada arquétipo feminino são emolduradas pelos cantos e pelas danças populares que, de certa forma, traduzem o universo simbólico de cada dessas personalidades. A crítica de Maria Lúcia Pereira por ocasião da participação deste espetáculo no XIII Festivale, Festival de Teatro do vale do Paraíba em São José dos Campos – SP destaca qualidades da montagem: “Este é um espetáculo que não narra: nele apontam-se situações, roçam-se sensações, emolduram-se sentimentos com ações estilizadas grávidas de significado. Desvendamos essas sensações e sentimentos com nossa emoção, tocados magicamente sem que saibamos como. Felizmente somos ainda sensíveis à simplicidade.” O resultado se torna visível nos rostos e nos comentários dos jurados daquela edição do festival, composto por Alexandre Mate, Carlos Eduardo Colabone, Luís Alberto de Abreu e Maria Lúcia Pereira. A experimentação com a linguagem cênica chega a um requinte de detalhes que surpreende pela simplicidade e sensibilidade.
O resultado observado nas duas montagens nos diz mais do que o próprio elogio, fala-nos do processo de criação e manutenção do espetáculo, que é considerado como estando sempre em processo, podendo ser re-elaborado e aperfeiçoando a linguagem. O Salamandra tem mantido esta linha de trabalho criando espetáculos que tem por principal objetivo, o desenvolvimento global dos artistas que integram o grupo, dentro de uma pesquisa de linguagem criada por nos mesmos. Nessa linha de pesquisa, o grupo montou os espetáculos Os três cavalos encantados, Marido de mulher brava, Conexões cósmicas e Histórias de Amar - Imaherô e outros contos.
