O Projeto

Poema Sujo:Corpo e Voz
Em homenagem aos 80 anos de Ferreira Gullar


“(...e são coisas vivas as palavras
e vibram da alegria do corpo
tem mesmo o seu perfume,
o gosto da carne.)”
(Ferreira Gullar, Poema sujo)



Este projeto propõe a montagem, ensaios e apresentações do espetáculo teatral “Poema sujo: corpo e voz”, a partir do “Poema sujo” do poeta Ferreira Gullar, pelo Salamandra Teatro e Companhia.

Uma experiência no limiar da memória

A obra foi escrita por Ferreira Gullar durante o regime militar, que colocou no exílio grande parte da intelectualidade brasileira. A pedido do poeta Vinícius de Moraes, foi inicialmente lida pelo autor, na casa de Augusto Boal, em Buenos Aires, no ano de 1975, que gravou o recital e, a partir daí, promoveu uma série de audições privadas onde os versos eram ouvidos por pequenos grupos. Tornou-se um texto de referência, sendo inclusive considerado por Vinícius de Moraes como o poema de maior importância da década.
Embora Gullar tenha sido fundador do concretismo, Poema Sujo não se enquadra neste gênero, é uma espécie de desabafo do autor, cujas lembranças afloram longe do seu país. Se o termo “sujo” do título faz alusão aos palavrões usados para dar corpo às texturas de sua memória, também se refere à forma livre da construção do texto. Neste extenso poema, o autor trata de suas experiências, reflexões do tempo em que viveu em São Luiz do Maranhão, sua cidade natal. Neste texto Gullar traz o vivido para o tempo presente, nas sensações de seu corpo, na metafísica da vida, mas não faz uma elegia aos tempos de outrora.
A história do país perpassa estes momentos, com a história oficial e também a história íntima de cada pessoa. Seja na época da segunda guerra mundial, na infância do autor em São Luiz, uma cidade perdida no norte do país, seja na época da ditadura militar no Brasil e Argentina, ou nos tempos atuais. Pretendemos nesta montagem dar corpo a estas histórias, transformando este texto lírico em uma montagem teatral. O poema não traça uma narrativa linear, mas tem centros temáticos, como movimentos de uma sinfonia. Poderia chamá-los de explosão, vertigem, memória, corpo, aprendizado, pai, palafitas, velocidade, noites, amor, etc, que se inter-relacionam, como a trama de um tecido. Mas como dar corpo e voz a este poema, carregado de humanismo e criatividade? Como revelar as paisagens da memória, marcadas no cerne deste poema, que se lambuza na palavra e no corpo, na cidade, nos seus personagens, num calor equatorial que permeia tudo isso?
Este texto é profundamente sensorial, o que permite ao ator mergulhar verticalmente na relação da palavra com o corpo. Ter um texto claro e fluente, mas ao mesmo tempo ancorado nos espaços íntimos do corpo, nas relações deste com as lembranças, e com aquilo que o real apresenta como paradigma. Este é o centro desta pesquisa que norteará a escolha da linguagem cênica a ser pesquisada.


Sinópse

O poema revela as memórias do autor, a infância e juventude, como crônica de uma São Luiz do Maranhão dos anos quarenta, quando esta era, apesar de ser capital de um estado, uma cidade provinciana no norte do país. A partir desta experiência entra em questões existencialistas sobre a metafísica da vida.


Encenação

A pesquisa cênica que nos interessa em particular ao montar o Poema sujo de Ferreira Gular é a transposição de uma linguagem poética, lírica, para a linguagem cênica. Um dos fortes traços que marcam o teatro moderno é a transposição do épico ao teatro. As formulações de Brecht foram fundamentais para a revitalização da cena principalmente depois dos anos 1950. O teatro contemporâneo também aponta uma forte presença dos recursos épicos na criação teatral, mas as experiências se diversificam e o hibridismo é o conceito que mais se tem aplicado para se referir aos movimentos artísticos que cada vez mais mesclam linguagens. Dentre estas experiências está a utilização de formas líricas como base para a composição de obras dramáticas.
A linguagem terá como principal foco o trabalho corporal e a voz dos atores. O corpo desenha no espaço a forma de suas lembranças, constrói em tempo presente. A voz do ator é o elemento que no teatro personifica a voz do poeta. O poema, em princípio, é uma obra para ser lida para si mesmo ou declamada para uma audiência, como em saraus. Mas, na cena propomos deixar marcado o momento em que o poeta escreve o poema, que não está no texto do poema, mas está na história do país como um elemento simbólico na luta contra a ditadura militar. Voz que representa toda uma geração, que nutria um profundo desejo de liberdade e transformação.