24 de set. de 2010

Naquele ano de 1964


Naquele ano de 1964, com a ditadura recém instalada pelo senhor Castelo Branco e também com outros seus colegas no comando, que se mostraram de uma truculência ainda maior, como  Costa e Silva, Geisel e Médici, o pior deles .Esses senhores sérios que eram inimigos da liberdade de expressão e que davam segurança a liga das senhoras católicas, que andavam em passeata pelas ruas, indignadas e amedrontadas pela perspectiva do avanço do comunismo, esse monstro vermelho que os russos , Cuba e a China adotaram. Essas senhoras viam com estranheza seus queridos filhos andarem despenteados, ouvindo rock, as meninas tomando pílula e transando, assim como seus maridos, pais austeros, sérios e machos, que de fato não sabiam o que fazer com a liberdade de suas filhas...
Naquele tempo por volta do AI-5. que bania todos direitos constitucionais, a perseguição aos líderes de esquerda e a todos os que  falavam contra a ditadura militar estava no seu auge.
Naquele tempo, eu já me lembro, eu era criança e via as pessoas com medo. Havia um mau estar no ar, havia um mau estar profundo nas pessoas que tinham sonho e nutriam utopias. As pessoas naquele tempo nutriam utopias.
O poeta Ferreira Gullar, que por sua postura política, atividades, idéias e ideais, tinha medo der ser preso e torturado, como tantos foram até a morte, partiu para o exílio, morou em Moscou, Santiago, Lima até chegar a Buenos Aires, onde permaneceria no apartamento de Augusto Boal. Lá, tomado pelo poema por 6 meses, ele escreveu o Poema Sujo. Vinícius de Moraes, traz esta obra para Brasil na forma uma fita cassete em que Gullar diz seu “Poema Sujo” e que é ouvido por grupos de pessoas, em audições privadas.
Ator abrindo a fita e puxando a película: nesta película estão gravadas as palavras do poeta na voz do poeta, as palavras como encantações que vão se perpetuando, os versos...as palavras, que chegaram até nós e foram editadas em forma de livro.


Como equilibrista na corda bamba, como um homem na linha de seu destino, segue a obra de um poeta em sua cultura.
Nos estamos, nesta montagem, revisitando este texto tão querido. Vale dizer que optamos por não fazê-lo na íntegra, mas trabalhar com as partes que mais nos interessaram na sua tradução para a cena. Assim sendo, somos traidores do original. Bom espetáculo!

Paulo Farah André



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