Os ensaios do mês de outubro estão sendo praticamente dedicados aos estudos do texto. O trabalho em cima do poema é o que poderíamos chamar de ensaio de mesa. Esta prática, que consiste basicamente em sentar-se com o elenco e destrinchar o texto, é muito usual no processo criativo de um espetáculo. Alguns diretores dizem montar o espetáculo, já ai, na mesa, só levantando o texto depois nos ensaios de palco. Em termos aritméticos, digamos 2/3 de mesa e 1/3 de palco. Esta forma de trabalhar não era a utilizada pelo Teatro Ventoforte que trabalha quase totalmente a partir dos experimentos de palco, referência de origem do nosso grupo, que adotara a pesquisa de palco e a construção do texto a partir dos experimentos do ator como forma de montagem, deixando em segundo plano o formalismo do ensaio de mesa. Mesmo quando, às vezes nos reunimos para ler um texto em de ensaio de mesa procuramos manter esta ligação com o palco e utilizamos a música e as danças para manterem ativos os corpos dos atores.
Os ensaios de mesa do Poema sujo estão exigindo maior atenção na leitura do texto. As dificuldades de transposição do gênero lírico para o dramático já aparecem e decidimos trabalhar alternando palco e mesa. As técnicas usualmente aplicadas no estudo de um texto teatral neste caso não se aplicam totalmente, o poema não apresenta as características dramáticas que um texto teatral teria por base em sua construção. Indicamos como caminho de pesquisa para uma condução dramatúrgica, o poeta como personagem que conduzirá o espetáculo e seu “alter-ego”, um duplo, ou seja, o desdobramento dele.
A pessoa lírica, que seria o narrador da história, o eu poético se impõe como o sujeito do enredo, porém ao nos contar sua história, provinda de memórias, ele se torna um narrador. Passado e presente se misturam e se diferenciam na tessitura do poema. A dualidade está presente na obra de Ferreira Gullar, como no poema Traduzir-se (postado no blog).
Este desdobramento do personagem nos dá margem para criamos um jogo entre os tempos que o poema vai apresentando: no presente o poeta está exilado em Buenos Ayres, em um apartamento emprestado por um amigo; a voz do passado o leva a sua infância e adolescência, à sua cidade natal, que surge como um ícone que representa sua situação em relação ao seu país. A construção deste personagem, a que chamamos poeta, será a base condutora da dramaturgia do espetáculo.
O acompanhamento da música nestes ensaios é que esta chamando a atenção. Porém o trabalho dos dois músicos às vezes necessita que paremos somente na música. Percebemos que podemos fazer isso durante os ensaios de mesa e a experimentação musical tem ajudado a compreender a rítmica do poema. Deste processo duas composições foram criadas durante as leituras e as experimentações são constantes, de modo que quando vamos para o palco já temos boas sugestões.
Os ensaios de mesa ficaram mais alegres e descontraídos, embora atentos na leitura do texto, em sua sintaxe. A presença dos músicos na leitura acaba por revelar a musicalidade do poeta e isso auxilia o entendimento do ator ao dizer o texto, mesmo porque, temos um elenco musical, pois todos tocam.
Wil
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